Sabe quando você tenta expressar algo e na sua cabeça rola um bilhão de coisas ao mesmo tempo, uma ideia ou reflexão querendo passar na frente das outras, uma competição de memórias, sensações, conceitos. Pois é, é justamente isso que sinto ao me perguntar “o que a música representa para mim” e passo isso neste exato momento ao tentar esboçar no máximo uma resposta rasa. Na real, falar sobre arte é difícil, não se consegue definir essas coisas que são a base de toda a inspiração e ainda equilíbrio necessário para nossa existência (gastei agora hein? rs).
 
Eu sou o tipo de cara que se assusta ao descobrir que há pessoas no mundo que não sentem o mínimo prazer em ouvir música e são indiferentes, não sentem falta de curtir um som no dia a dia, nunca compraram um disco (vi isso numa pesquisa recente) etc. Isso pra mim é algo inimaginável, pois, acredito que a música dá ritmo às nossas vidas, ela é capaz de conectar corpo, mente e alma e mantê-los numa sintonia única por meio de criações às quais nos identificamos de forma íntima, emocional, visceral. Já passou por aquele momento em que você coloca o fone de ouvido, dá o play num som muito conveniente e viaja total? É disso que se trata a musicalidade.
 
Quem já teve a oportunidade de ir ao show de um grande ídolo e na hora que o espetáculo começou se arrepiou da ponta do dedão do pé à sobrancelha creio que sabe bem do que estou falando. A música contém essa força, verdadeira e contagiante, com o poder de nos transportar, nos inspirar e modificar emoções numa fração de segundo. Como diria um tal de Longfellow: “Mostre-me um lar em que habite a música, e mostrar-lhe-ei um lar, feliz, tranquilo e alegre”.
 

“O que dizer sobre a diversidade e qualidade da música atual?”

 

Não sou de criticar gostos musicais (não muito) e claro, nem tenho o poder de dizer que existe um estilo que seja o único verdadeiro, perfeito, soberano e que todos os outros são falhos e menos importantes. Creio que a cultura como um todo deve ser considerada e as diferenças respeitadas, mesmo porque se todos gostássemos das mesmas coisas e da mesma forma o mundo seria meio chatinho, convenhamos. Agora, me reservo o direito de arriscar ao dizer que há muita coisa por aí que deveria ser repensada.
 
Tudo o que é bom e verdadeiro perdura, e quanto mais o tempo passa, melhor fica. Essa é minha percepção sobre quase tudo e não poderia ser diferente em relação à música. Se você já foi pego de jeito por um hit e se declarou ser o maior fã daquilo, ouviu mil vezes por dia, tatuou uma das estrofes – postou no Orkut – e hoje não só não curte mais como tem até vergonha dessa fase posso lhe garantir que coisa boa não era. Podia ter instrumentos bem tocados, ritmo dançante, disco de ouro recebido pelas mãos do Gugu etc., não adianta, esse é um ótimo exemplo do que eu falei anteriormente, coisas que devem ser abolidas repensadas…
 
Eu nasci e cresci num lar simples, sem músicos profissionais, sem ditadura musical ou repreensão de estilos, mas que graças ao bom Deus tinha pelo menos uma vitrolinha e uma dúzia de discos de vinil do meu pai. Nesse repertório, tinha desde Ray Conniff à disco music, claro, passando por Jovem Guarda, surf music, C.C.R, Secos e Molhados, Pholhas, Raul Seixas, enfim, só coisa boa que serviu como alicerce para minha formação amadora como entusiasta da música, principalmente o rock n’ roll e suas vertentes.
 
Ouvir de modo sensorial uma música que te leva à infância, a lugares e pessoas, que te faz lembrar e se emocionar rapidamente com algum episódio já vivido, prova o quão fundamental é a musicalidade em nossas vidas e o quão profundo isso se torna, tudo extremamente conectado com nossa história.
 

“Sem música, a vida seria um erro (Nietzsche)”

 

A minha ligação com a música cresceu num ritmo sincronizado com meu amadurecimento e foi virando uma bola de neve formada por cifras, decibéis, chiados, inspiração, transpiração, palmas, palhetas, batucadas e uma pitada de infinitas possibilidades de se curtir, ouvir, sonhar, cantar, tocar e me sentir cada vez mais próximo desse fenômeno do jeito que ele é de fato. Quase palpável.
 
Sou apaixonado pelo modo como os Beatles amadureceram e reinventaram o jeito de se fazer música, o style comedido e único de Keith Richards tocar guitarra, as vozes de Bill Withers, Otis Redding, Elvis Presley, Sammy Davis Jr., Aretha Franklin, Janis Joplin, Amy Winehouse, o sax de Miles Davis, o blues de Robert Johnson e Muddy Waters, o R&B de Stevie Wonder, a Motown, os primitivos gênios da música mundial como Mozart, Chopin, Bach… ah, enfim! Deu pra captar né?!
 
Bom, este artigo representa uma parcela mínima do meu parecer no que tange a musicalidade e o que ela significa desde que me entendo por gente. É muito prazeroso e instigante explorar esse tipo de conteúdo, expondo a minha percepção e ao mesmo tempo resgatando algumas experiências marcantes e decisivas ligadas diretamente à música.
 
Perceber nos momentos em que vivi, até então, uma fantástica trilha sonora: foi isso que a música fez comigo.